Mulheres na ciência: Lélia Gonzalez

A historiadora e filósofa Lélia Gonzalez faz parte de diversos exemplos de mulheres que protagonizaram a sua própria história e que ajudaram a construir trilhas para que outras pudesse caminhar. Se você não a conhece, não perca a oportunidade.

Por que precisamos estudar o pensamento de Lélia Gonzalez no mês de março e em todos os outros meses do ano? 

O dia 08 e o mês março não se limitam às comemorações do Dia Internacional da Mulher. Também é um momento propício para conhecermos mulheres que deixaram seu legado na construção da luta por igualdade e equidade entre os gêneros. A brasileira Lélia Gonzalez faz parte desse time de mulheres protagonistas da própria história e que se colocou em defesa de todas. Principalmente, quando a intelectual ativista apoiou e escreveu sobre as mulheres afro-latino-americanas. 

Biografia

Lélia de Almeida Gonzalez (1935-1994) nasceu na cidade de Belo Horizonte, em Minas Gerais. De origem popular, seu pai era um operário negro e sua mãe uma trabalhadora doméstica indígena. Trabalhou como babá na juventude, mas foi além e formou-se em História e Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Posteriormente cursou mestrado em Comunicação Social e doutorado em Antropologia, tornando-se professora universitária na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Gonzalez dedicou-se à Antropologia Política. As pesquisas que desenvolveu centralizaram-se nas questões de gênero, raça/etnia e classe social. Dessa forma, a partir de 1974, aprofundou-se no conteúdo político das relações raciais. Compreendeu, também, a cultura popular brasileira em sua diversidade.

Foi fundadora (1978) e membro do Movimento Negro Unificado (MNU), de maneira que defendeu a legitimidade e a necessidade de haver o movimento negro no Brasil para combater o racismo. Além disso, nos artigos acadêmicos e nos debates que protagonizava, Gonzalez fomentou uma elaboração mais estruturada do papel da mulher negra e feminista nas ações políticas e em defesa de seus direitos. 

Como militante, lutou contra a discriminação das mulheres e das pessoas afrodescendentes. E, por conta do seu trabalho, foi a primeira mulher negra a sair do país para apresentar ao mundo a verdadeira situação das mulheres negras brasileiras. Participando de eventos internacionais como o 1º e o 2º Seminário da ONU sobre a “Mulher e o apartheid”, no Canadá e Finlândia, em 1980. Publicou livros e artigos reconhecidos nacional e internacionalmente, destacando a realidade de desigualdade e exploração do sujeito negro e da mulher. Entre as obras mais famosas da pesquisadora estão: 

  • Festas Populares no Brasil (1987);
  • Lugar de Negro (1982), cujo coautor foi o sociólogo argentino Carlos Hasenbalg e;
  •  Por um Feminismo Afro-latino-americano (2020). 

A intelectual ativista participou diretamente do processo de redemocratização entre as décadas de 1980 e 1990, no qual deu-se fim ao período da Ditadura Militar (1964–1985) no Brasil. Para isso, apoiou-se na coletividade dos movimentos sociais que integrava. Discursou, em 1987, na Assembleia Nacional Constituinte, que teve como finalidade construir e aprovar a atual Constituição Federal de 1988. Gonzalez se pronunciou na reunião da Subcomissão dos Negros, Populações Indígenas, Pessoas com Deficiência e Minorias. Em seu discurso, chamou a atenção para o modo como a sociedade brasileira contemporânea estava se formando:

Invocamos aqui as palavras de Joaquim Nabuco, ao afirmar que o africano e o afro-brasileiro trabalham para os outros, ou seja, construíram uma sociedade para a classe e raça dominante. E falar de sociedade brasileira, falar de um processo histórico, é falar justamente da contribuição que o negro traz para esta sociedade; por outro lado, é falar de um silêncio e de uma marginalização de mecanismos que são desenvolvidos no interior desta própria sociedade para que ele se veja a si própria como uma sociedade branca, continental e masculina, diga-se de passagem (GONZALEZ,2020, p. 244-245).

Na ocasião, a então deputada federal da época, Benedita da Silva, deu ênfase à participação de Lélia Gonzalez afirmando que:

Temos entre nós, hoje, como expositora da temática ‘O negro e sua situação’, uma das mais brilhantes antropólogas que os negros puderam conhecer na história da sociedade brasileira, que é Lélia Gonzalez (GONZALEZ, 2020, p. 244).

Portanto, como ativista Gonzalez contribuiu em diversas frentes desde a luta pelo fim do racismo e pela igualdade entre os gêneros até a formação da Constituição Cidadã de 1988. Como intelectual e pesquisadora teve o poder de agregar a filosofia ocidental, os ditos populares, as elaborações dos mestres das escolas de samba e os conhecimentos produzidos por mulheres da classe trabalhadora para interpretar e questionar a realidade social e cultural brasileira. Assim, surgiu o conceito “pretuguês”, elemento essencial para o processo de africanização da língua portuguesa brasileira.  

Dica de produção audiovisual para saber mais sobre a filósofa, antropóloga e historiadora brasileira Lélia Gonzalez:

TV PUC-Rio: Série Desbravadores | Lélia Gonzalez Ep. 02  

CULTNE – Lélia Gonzalez – Feminismo Negro no Palco da História

Referência Bibliográfica:

BARROS, Luiza Lembrando Lélia Gonzalez 1935 – 1994. Afro-Ásia [online]. 1999, (23), 0[data de consulta 11 de março de 2022]. ISSN: 0002-0591. Disponível em: https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=77002312

GONZALEZ, Lélia.2020. Por um Feminismo Afro-Latino-Americano:Ensaios, Intervenções e Diálogos . Rio Janeiro: Zahar. 375 pp.

RATTS, Alex;RIOS, Flavia M. Lélia Gonzalez : Retratos do Brasil Negro. São Paulo: Summus/Selo Negro, 2010, 173 p.

Revisão do texto: @nina0717ne e @leandronieves

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